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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Estrela FITA 1400

Uma das maneiras de se medir a evolução e o desempenho de um atleta de tiro com arco é a pontuação que ele obtém em um Round FITA, por exigir que o atleta atire uma quantidade de flechas estatisticamente significativa (36) em cada uma das quatro distâncias diferentes, é, sem dúvida, uma boa prova do nível de qualidade do arqueiro.

Exemplo de estrela FITA
Para reconhecer o mérito dos atletas, a Federação Internacional de Tiro com Arco (FITA), criou a Estrela FITA, premiação oferecida aos atletas que atingiram uma determinada pontuação em uma competição previamente determinada, trata-se de um pin com uma estrela, o símbolo da Federação Internacional e a pontuação alcançada.

O premio é dado aos atletas que tenham atingido 1000, 1100, 1200, 1300, 1350 e 1400 pontos dos 1440 possíveis. A cor da estrela é correspondente às cores dos anéis do alvo (branco, preto, azul, vermelho e amarelo), sendo que a estrela de 1400 é de cor roxa.

A existência de uma premiação assim é muito interesante, pois atletas de diferentes níveis técnicos podem estar na mesma linha de tiro com o mesmo estímulo de alcançar suas metas.

Em 2008, o atleta Roberval dos Santos foi o primeiro atleta do Brasil a quebrar a marca dos 1400 pontos em uma competição Estrla FITA, o Campeonato Panamericano de Tiro com Arco, com a marca de 1403 pontos (343/349/352/359), com 110 10´s e 55 x´s, entrando para o seleto grupo de arqueiros 1400.

O resultado foi muito comentado à época e eu acredito que serviu de ímpeto para que Marcelo Roriz também antrasse para o clube, alguns meses depois. Sem dúvida o fato serviu de exemplo aos outros atletas de composto, que tem mantido um elevado nível de competição no Brasil.

Sempre ouvi várias lendas sobre a mística estrela FITA de 1400 pontos, mas a realidade se mostrou menos pomposa do que as lendas. Em Santo Domingo, na primeira etapa da Copa do Mundo de 2009, a estrela foi entregue sem maiores formalidades ao nosso Roberval, mas tive a oportunidade de estar presente e imortalizar o momento. Foi um momento muito significativo, um daqueles momentos em que nós brasileiros nos sentimos orgulhosos e podemos dizer que estamos ombro a ombro com os melhores do mundo.


 É uma pena que este momento, para a maioria dos arqueiros brasileiros, tenha passado despercebido. Acredito que, a exemplo de outras federações de tiro com arco pelo mundo, deveríamos ter uma cerimônia anual para reconhecer os méritos de nossos atletas, pois a valorização do esporte e dos atletas deve começar pelos próprios arqueiros.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Esporte na concepção do brasileiro

Outro dia, estava treinando no campo do Clube do Exército e enquanto caminhava para pegar minhas flechas no alvo, um carro passou ao lado e o motorista gritou: "Vai trabalhar, vagabundo!" O interessante é que não foi a primeira vez que isso aconteceu, na vez anterior, me pouparam do vagabundo.

Na hora fiquei chateado, uma vez que sendo neto de calvinistas europeus, sempre foi muito cobrado a me dedicar com afinco ao trabalho. Entretanto, o fato revela características da nossa sociedade: o esporte ainda não é considerado uma atividade "útil" e o brasileiro ainda está engatinhando no espírito esportivo.

Mesmo depois de brasileiros terem brilhado em esportes não convencionais (no caso do Brasil os esportes não convencionais englobam todos os esportes diferentes do futebol), como é o caso do Guga no tênis, do Scheidt na vela, do Bob Burnquist no skate, o brasileiro não consegue reconhecer que a prática do esporte é um ato nobre e altruísta por parte do atleta, que muitas vezes não recebe um centavo para engrandecer a imagem do Brasil.

Quem pratica qualquer atividade esportiva, sabe que para um atleta chegar a um alto nível de desempenho, são necessários anos de prática diária dedicada, sendo isso muito diverso da atitude de um vagabundo. O papel do atleta é extremamente útil para a sociedade como um todo, o atleta muda o nível de energia das pessoas que estão ao seu redor, disseminando boas práticas de saúde, de alimentação e de respeito.

A prática esportiva em organizações tem impactos profundos no grau de saúde dos indivíduos envolvidos. Melhor saúde implica em redução de gastos. Uma sociedade fisicamente ativa é uma sociedade mais saudável, mais eficiente. Acredito que seria desejável que o investimento do governo brasileiro nos esportes fosse maior, como uma aposta em uma sociedade melhor.

Quanto ao espírito esportivo ainda pouco desenvolvido, não é muito difícil arrumar exemplos de maus comportamentos: as brigas de torcidas no futebol são lugares comuns; me lembro de uma Copa Davis que fui assistir em que um tenista uruguaio interrompeu o saque várias vezes por causa da gritaria da torcida; na final do NBB do ano passado, a torcida de Brasília apresentou um triste espetáculo saindo no braço com alguns jogadores do Flamengo.

O atleta é o artista e o seu palco é o campo, a quadra, o tatame... o espectador deveria se resumir a aplaudir e se quiser influenciar os resultados, deve começar a praticar esporte seriamente. 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Reflexões de Fim de Ano: A Importância da Família

Na semana passada, recebi do Júlio (atleta da seleção para-olímpica brasileira e do site Portal do Arco e Flecha) o seguinte verso de Drummond:

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo  genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar,
 que daqui para diante vai ser diferente ."

É interessante pensar que na verdade a vida segue o seu rumo, mas pelo fato de a cortarmos em fatias de 12 meses, podemos pensar, avaliar e verificar se esse periodo foi positivo e como devemos proceder no próximo período de 12 meses.

O último ano foi para mim um momento importante de decisão a respeito do tempo dedicado ao tiro com arco e o tempo dedicado à família e ao trabalho. Acho que deixei que as coisas adquirirem um caráter de concorrência, quando, na verdade, devem ter um caráter colaborativo.

Em março de 2010 fui para os Jogos Sul-Americanos em Medellin quando minha filha tinha pouco mais de um mês de idade. É claro que esse tipo de atitude sempre causa em nós um certo peso na consciência. Felizmente fui bem e voltei para casa com o espírito renovado e cheio de otimismo. Em setembro de 2010, ao contrário, fui para o Torneio Bicentenário no Chile, onde tive um desempenho abaixo do esperado. Naquele momento refleti muito sobre o esforço que eu havia feito ao longo de todo o ano e de como eu havia deixado de aproveitar certos momentos, de como eu tinha deixado de resolver pequenas coisas em casa e decomo eu estava chegando atrasado no trabalho, só para poder dar alguns tiros a mais.

Mesmo já tendo ouvido isso milhares de vezes, cheguei por conta própria à conclusão de que mais vale a qualidade do treino do que a quantidade de tiros. 

Um exemplo legal que tive foi dos colegas de equipe: Luciano Vaz Alvarenga e Rogério de Lima Ambrósio. Ambos fazem parte da seleção da seleção. A seleção dos arqueiros brasileiros que tem uma bonita história de vida familiar. Eles foram meus colegas na equipe brasileira que foi ao Chile.

O Luciano foi para o torneio poucas semanas após o nascimento da sua filha. É uma atitude compreensível uma vez que se tratava de sua primeira convocação para a seleção brasileira, ele fez uma boa qualificação com 1341 pontos (mantendo a média dos torneios no Brasil) e um belíssimo combate, ganhando, infelizmente, do também brasileiro e multicampeão Roberval "Tico" dos Santos. Fato que foi para ele um importante feito, como pude confirmar em uma conversa pessoal após o combate, ele parecia não ter acreditado no que havia feito, pois não é todo dia que se ganha do "Tico" num combate. 

Conheci o Luciano quando fui participar, "como ouvinte", da seletiva brasileira para os Jogos Olímpicos de Beijing. A seletiva ocorreu na cidade de Belo Horizonte e foi muito legar ver o Luciano com seu filho pequeno (acho que na época devia ter uns 4 anos) atirando com o seu arquinho composto de plástico em um alvo de pano colocado a uns 5 metros de distância.

Em 2009, no Campeonato Brasileiro de Tiro com Arco em Bento Gonçalves, o Luciano também estava  lá acompanhado do seu torcedor incondicional, que ganhou uma Jabulani de Presente quando o Luciano voltou do Chile.

O Rogério eu conheci no Torneio da Amizade de 2008, na cidade do Rio de Janeiro, naquela competição eu havia esquecido a chave da minha mala do arco no hotel, felizmente ele tinha uma chave igual e quando eu voltei do hotel com a chave, o meu técnico já tinha montado o arco para mim. Ele me contou que a história dele no arco foi de idas e vindas e felizmente a última vinda está durando bastante tempo e rendendo bons frutos, o que pode ser confirmado pela conquista da Copa do Brasil 2010 no arco composto.

Para a viagem ao Chile, sua família acordou cedo para levá-lo ao aeroporto, achei muito legal ver aquela família unida se despedindo do Pai que também estava sendo convocado pela primeira vez para a seleção brasileira. Nesta competição, além da medalha de ouro conquistada nos 50 metros e de terminar a fase qualificatória em 4 lugar, ele fez parte da equipe que ganhou a medalha de ouro e ficou a um ponto de igualar o Recorde Mundial, que atualmente pertence a equipe da Holanda com 238 pontos. Com uma sequência só de 10's Rogério fez um belíssimo combate por equipes e de quebra guardou um recorde Panamericano no Bolso.

Os exemplos mostram que, mesmo se tendo uma vida rica de experiências como a família, o trabalho e outras coisas, é possível atirar num alto nível e levar o arco e flecha numa boa. É claro que é sempre bom lembrar de levar um presentinho para os que ficaram esperando em casa.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Histórias do Arco e Flecha: Equilíbrio Distante

Em 2008 fui disputar um campeonato de ranqueamento internacional na cidade de Durban, Africa do Sul. A fase de ranqueamento (Round FITA) para eles era o campeonato nacional sul-africano. A minha motivação de participar desta competição era a de obter experiência internacional, fator importantíssimo na formação de qualquer atleta. As lições aprendidas e as experiências vividas foram muito além do que eu poderia esperar.
Naquele momento, a Africa do Sul tinha muitas características semelhantes com o Brasil: o nível técnico era muito parecido, eles haviam conquistado apenas uma vaga para os Jogos Olímpicos daquele ano, a quantidade de atletas na competição era muito semelhante e o nível socio-econômico dos praticantes era praticamente o mesmo que o do Brasil. Um fato interessante era que não havia nenhum arqueiro negro participando da competição.
Naquela competição conheci o senhor Malcom Tood, vestindo o tradicional uniforme do clube Belville Archery: calça branca comprida, blusas brancas e chapéu branco, muito elegante, uma viagem no tempo em que todos os atletas tinham que se vestir assim. A distinção de Malcom para os demais atletas da equipe era que na camisa do uniforme havia o número 50 bordado. Aquele era o quinquagésimo campeonato nacional que o Sr. Malcom participava, já havia ganhado dezenas, fora o recordista nacional de praticamente todas as distâncias por longos anos e era até aquele ano o único sul-africano que havia quebrado a barreira dos 1300 pontos no recurvo. Muito alegre e receptivo estava lá para mais uma competição.

Tive a honra de enfrentá-lo nas quartas-de-final e ganhei a minha vaga na primeira semi-final de um campeonato internacional vencendo-o por 105 a 103.
Em 2009 uma história semelhante aconteceu, dessa vez no Brasil, quando enfrentei o mito, Renato Emílio, com um currículum tão impressionante como o do Malcom. É o recordista de Campeonatos Brasileiros conquistados, é o brasileiro que mais participou de jogos olímpicos (Moscou, Los Angeles, Seoul e Barcelona), é a nossa última recordação de medalha em jogos panamericanos. Tive a honra de enfrentá-lo também nas quartas-de-final e obtive a minha primeira vaga em semi-final da Copa do Brasil por 108 a 103, um bonito combate.
Renato e Malcom, ambos emanam a energia e tranquilidade de quem já esteve onde muitos querem chegar.



Eu e Malcom


Eu e Renato